{"id":2957,"date":"2012-11-13T15:48:07","date_gmt":"2012-11-13T18:48:07","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=2957"},"modified":"2025-11-13T19:37:48","modified_gmt":"2025-11-13T22:37:48","slug":"dedos-de-prosa-i-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-8\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>SUMINHA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tere Tavares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"398\" role=\"presentation\" aria-hidden=\"true\" src=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2959\" srcset=\"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3.jpg 400w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3-150x150.jpg 150w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3-300x298.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos degraus junto \u00e0 cal\u00e7ada prorrompiam pap\u00e9is e folhas varridos pelas lufadas de ar, prenunciado a torrente que se aproximava. Sob a leveza das malhas de algod\u00e3o aguardava os pingos da chuva que lentamente lhe umedeciam a pele, o f\u00f4lego palpitante, apoiado por uma hachura decidida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caminhou ondulando as pernas, apreciando o tremular das gotas como um afago de nanquim que lhe retirava as ard\u00eancias do dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Largou os sapatos encharcados junto ao ch\u00e3o luzidio da casa \u2013 a janela debatendo-se contra o vento numa cantoria estridente. As paredes lhe ampararam o cansa\u00e7o. Via-se no debrum da \u00e1gua que a banhara como se s\u00f3 naquele instante realmente valesse a pena desvelar-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os livros que carregava no colo amaciaram a mesa e as transpar\u00eancias da sala. Largou-os como quem liberta retratos de outrora, recolocando-os novamente no olhar. Quase perscrutava com exatid\u00e3o pueril o chilreio das folhas semi-abertas, devorando as capas, os desenhos das capas, tateando: at\u00e9 onde tudo era somente o mosto de hist\u00f3rias, sons desertos, cores aninhadas em outras cores, \u00e1guas dentro de outras \u00e1guas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Buscava rapidamente o ar mais puro e perfeito, como quem se disp\u00f5e a arrefecer o frio, a alma disposta sem repress\u00f5es nos v\u00e3os da natureza. O barulho da enxurrada preenchia as fendas rudes da casa, o telhado ensurdecia-se dos pingos desfeitos na cer\u00e2mica. Viu-se no desassossego das a\u00e7\u00f5es mais simpl\u00f3rias. A lou\u00e7a do dia anterior ainda rescendia \u00e0 canela e erva-doce. Quantas vezes tomara o ch\u00e1 desanuviada de afazeres para melhor prender-lhe o sabor? N\u00e3o tinha d\u00favidas de que se filiaria algum dia, com tempo, ao movimento slow. Pensava enquanto o vapor do ch\u00e1 se misturava \u00e0 poeira da chuva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 fora para onde resolvera retornar, as flores permaneciam no seu crescimento inevit\u00e1vel. A legitimidade de estar conspirando para al\u00e9m da linguagem lhe parecia a incompreens\u00e3o de assumir detalhes, a desist\u00eancia decidindo por uma oposta intimidade apaixonando-se por silhuetas abstratas como se soubesse que, ao flanar sobre as coisas importantes, passassem, essas mesmas coisas a n\u00e3o ter mais lugar algum no mesmo e luminoso mundo que as pensara.&nbsp; No incomum, talvez mais oportuno e inc\u00f4modo, longe de superlativos ou relativismos, a lucidez de arguir sobre o que \u00e9 grandioso ou necess\u00e1rio nasceria invariavelmente da suspeita de n\u00e3o chegar a nada sem a via crucial dos sentimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As p\u00e9talas palmilhavam-se de um amarelo descrente, olhava-as, em tintas musicais \u2013 colheu v\u00e1rias, sentiu-lhes a seda, como se pedisse desculpas por n\u00e3o considerar-se uma delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pin\u00e7as de brisa se estendiam na claridade morna, retorcendo-lhe a curiosidade.&nbsp; Com al\u00edvio, retornou para dentro da casa. Amaciando-se na umidade da aragem, desfazendo-se sobre len\u00e7\u00f3is e travesseiros rebordados de um cetim confuso porque de letras<em> <\/em>brancas que sobre o negro cansava-lhe o fundo mar dos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensava como se sonhasse&#8230; e escolhia retornar \u00e0 beira do areal, ao menos at\u00e9 o ver\u00e3o retornar, a pele sugada por um farfalhar de asas, em movimento de abra\u00e7os&#8230;bastava-se num colar de ametista, afoita, sulcada pelo que se fora,&nbsp; qui\u00e7\u00e1 em ramas de mangues, de uma gar\u00e7a que vigiava \u2013&nbsp; o vento ruminante torcia as gaivotas, tomava notas ao secar-lhe os olhos suspeitando que a sensibilidade das retinas desse em algo poss\u00edvel de prodigalizar.&nbsp; Adiava as ondas enquanto ganhava novos \u00f3culos escuros, as t\u00eamporas renovadas pelos filtros duros de lume, da brandura \u00e1rida que n\u00e3o mais lhe provocava l\u00e1grimas. Como se assim pudesse evit\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No lado mais despido da praia o bailado das dunas era um dueto a agigantar-lhe os c\u00edlios no rumor sonoro e mi\u00fado do alga\u00e7o. A vida era real como o vento que soprava a mem\u00f3ria dos sais retidos de Suminha. De outro ponto os cardumes contrariavam a correnteza e as redes como se fossem seus olhos multiplicados em cepas e borbulhas, em busca de fertiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As m\u00e3os restavam finas produzindo fogueiras sobre o mar \u2013 repletas de matizes azuis e verdes, a rebuscar a serenidade l\u00edquida transportando-a, imensur\u00e1vel, para uma tela qualquer, sem importar-se se algu\u00e9m diria que era um auto-retrato, um resto obscuro retirado da colora\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel dos corais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dedos \u00e1geis como o choro contido nas achas por arder, perfuravam o sil\u00eancio, prosseguiam nos mimos hirtos do horizonte, bebia do sarga\u00e7o, do sumo esgar\u00e7ado nas bordas dos barcos que mascavam a madeira carcomida pelas cordas da \u00e2ncora. \u201cSobe um pouco mais, Suminha, preenche o ato duplo dos gestos com o teu verde pueril \u2013 h\u00e1 ornamentos suficientes para estilha\u00e7ares condi\u00e7\u00f5es que por um descuido f\u00fatil do destino n\u00e3o mais te pertencem. O tato, Suminha\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Retomou os despojos. Alguma coisa sobrara dos rabiscos que ousaram ferir a brancura daquele dia, das polifonias daquele vento, daquele sal, se a preenchessem de mais cor, de mais for\u00e7a \u2013 o que havia perdido permanecia em origamis devorados por fungos de esperan\u00e7a \u2013 quantos pronunciavam que a experi\u00eancia n\u00e3o se media entre os dedos, entre o passado e o futuro, tampouco em entretantos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Suminha do desacato chamuscava os feiti\u00e7os luminosos, n\u00e3o suportava a ideia de submeter-se por mais tempo ao torpor. \u201cQue cores acordam-te mais a m\u00fasica por dentro, Suminha? Assim, na umidade? Que rio te quer decantar esse azul-vermelho-d\u00e9bil-verde?\u201d. D\u00e1 voos aos beijos azuis, lava a lama das asas, o corpo fenece, l\u00fabrico, como se moldado pelas \u00e1guas que lhe ca\u00edram do c\u00e9u, na face, na secura febril dos olhos, o azul fiel lhe d\u00e1 guarida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A x\u00edcara de ch\u00e1 \u00e9 \u00f3leo, medium, piano, tecido. Agora sentia o sabor, controlava as gotas, recriando-se, dilu\u00edda do sil\u00eancio, na leveza de esvaziar-se no que lhe agradava. O peso leve da lou\u00e7a era igual ao da vida, da sua vontade que enfeitara feito Pen\u00e9lope cega, partituras dispostas num circuito infal\u00edvel&#8230; a limpidez dos nadas que carregava como adornos. Dos engenhos orquestrados, das teclas, das paletas. Demais o que desconhecia, era desnecess\u00e1rio dispor&#8230; os azuis salpicavam-lhe os cabelos, como pinc\u00e9is de outono musicando-lhe o que, independente de solicita\u00e7\u00f5es, concebera para o mundo \u2013 Suminha \u00e9 a multiplica\u00e7\u00e3o ass\u00eddua dos sons suspensos na mem\u00f3ria, na umidade l\u00eddima de cada segundo que ensaia abrir-se no horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>(<\/em><em><\/em><a href=\" http:\/\/m-eusoutros.blogspot.com\/\"><strong><em>Tere Tavares<\/em><\/strong><\/a><em>&nbsp;\u00e9 escritora e artista pl\u00e1stica. Autora de tr\u00eas livros publicados: &#8220;Flor Ess\u00eancia&#8221; (2004), &#8220;Meus Outros&#8221; (2007) e &#8220;Entre as \u00c1guas&#8221; (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: <a href=\"mailto:t.teretavares@gmail.com\" target=\"_blank\">t.teretavares@gmail.com<\/a>)<\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um universo sensorial varre a alma no conto de Tere Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2958,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"autor_texto":"","texto_outros_olhares":"","footnotes":""},"categories":[679,16],"tags":[437,81,41,149,694,693,695],"caderno":[4367],"class_list":["post-2957","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-73a-leva","category-destaques","tag-alma","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-prosa","tag-suminha","tag-tere-tavares","tag-universo-sensorial","caderno-dedos-de-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2957"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22629,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957\/revisions\/22629"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2958"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2957"},{"taxonomy":"caderno","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/caderno?post=2957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}