{"id":15981,"date":"2018-12-16T22:45:32","date_gmt":"2018-12-17T01:45:32","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15981"},"modified":"2025-11-11T17:50:07","modified_gmt":"2025-11-11T20:50:07","slug":"aperitivo-da-palavra-i-24","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-24\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>O mundo \u00e9 uma roda e n\u00f3s no meio<\/em><\/strong><strong> ou como se deu minha <em>Trans forma s\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Mayana Rocha Soares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/capa-transforma\u00e7ao-interna-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"329\" height=\"450\" role=\"presentation\" aria-hidden=\"true\" src=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/capa-transforma\u00e7ao-interna-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15982\" srcset=\"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/capa-transforma\u00e7ao-interna-1.jpg 329w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/capa-transforma\u00e7ao-interna-1-219x300.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 329px) 100vw, 329px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Plat\u00e3o tinha mesmo raz\u00e3o em temer a presen\u00e7a de poetas em seu projeto de p\u00f3lis. \u00c9 gente perigosa, que faz movimentos curandeiros com palavras. \u00c9 brincando de transmutar que o poeta Alex Sim\u00f5es ginga formas, palavras e sentidos, em seu recente livro de poesia <em>Trans Formas S\u00e3o<\/em>, lan\u00e7ado em 2018, pela editora soteropolitana Organismo. Esses giros de poesia n\u00e3o foram por mim lidos na racionalidade pretendida de uma cr\u00edtica liter\u00e1ria, mas atingiu o corpo. Ta\u00ed o seu perigo! Atingindo o corpo, ela (a poesia e seu efeito alucin\u00f3geno) tem o poder de agir como feiti\u00e7o e reorganizar sentidos, desejos, gestos de afeto. Alex nos deu um roteiro de transmuta\u00e7\u00e3o. E mudar \u00e9 perigoso para os desejos da na\u00e7\u00e3o. H\u00e1 sum\u00e1rios por todos os lados como b\u00fassolas para gente poder se perder \u00e0 vontade. H\u00e1 o sagrado \u201cno meio do caminho, entrelugares\u201d, entrecaminhos, encruzilhadas tecnol\u00f3gicas, cantos, sons, Exu, eb\u00f3, pad\u00ea. Sem eixos centrais de sustenta\u00e7\u00e3o. \u201cMas h\u00e1 um centro?\u201d S\u00f3 o habitar do fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alex Sim\u00f5es \u00e9 poeta, professor e performer baiano. Al\u00e9m de muitas outras publica\u00e7\u00f5es em livros e colet\u00e2neas, realiza no pr\u00f3prio corpo a experi\u00eancia liter\u00e1ria, atrav\u00e9s da performance. O livro \u00e9 composto de 37 poemas. Por meio destes, Alex Sim\u00f5es exp\u00f5e o mundo atrav\u00e9s dos olhos apaixonados de quem n\u00e3o apenas observa a vida passando, mas a vive. Por quem atravessa a vida transformando e sendo transformado por ela. <em>Trans Formas S\u00e3o<\/em> \u00e9 um livro de performances art\u00edsticas das palavras, das formas e sentidos todos, reorganizados a partir do que sentimos, de como amamos e de como seguem nossos desejos e afetos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O poeta admite fingir, mas n\u00e3o s\u00f3 como o Pessoa, o portugu\u00eas. Melhor. N\u00e3o finge s\u00f3 a dor. Ele diz: \u00e9 que \u201cme faltam boas ideias e tendo a apelar para grafismos\u201d, h\u00e1 que \u201cfingir que j\u00e1 li muitos calhama\u00e7os, roubar, plagiar, sempre negar\u201d. \u00c9 que \u201ca vida sem sentido d\u00e1 avisos \/ h\u00e1 vida pulsando \/ o tempo urge e \u00e0s vezes d\u00f3i lembrar\u201d. Eu tamb\u00e9m roubo suas palavras agora, mas n\u00e3o sou poeta. Me permito transbordar nessa lama de palavras. Mergulho nela e me transformo tamb\u00e9m. Aquela mulher que abriu a primeira p\u00e1gina do livro n\u00e3o \u00e9 a mesma quando encerrou a leitura. Alex \u00e9 modesto. \u201cembora n\u00e3o despreze o m\u00e9tier, e seja mau poeta, \u00e9 de outra sub\u00e1rea: dos que temos alguma voca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pra poesia, mas pra gambiarra\u201d. Acha que \u00e9 um poeta ruim. Se ser ruim \u00e9 cumprir essa dif\u00edcil tarefa de trans forma s\u00e3o, sem controle de como isso \u00e9 poss\u00edvel, sem reconhecer seu alcance, ent\u00e3o, fique satisfeito: voc\u00ea \u00e9 muito ruim nisso! A gambiarra \u00e9 que salva! \u201cToda\/o poeta \u00e9 experimental \/ obcecado por buceta\u201d [de minha parte, tamb\u00e9m gosto] \/ transg\u00eanero por voca\u00e7\u00e3o \/ h\u00edbrido por defini\u00e7\u00e3o \/ fundado na incerteza\u201d. A gambiarra \u00e9 essa arma que faz da literatura ser aquele menor, conforme Deleuze e Guattari nos ensinaram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As certezas todas foram embora. Em Trans Formas S\u00e3o nos instalamos no obl\u00edquo, na experi\u00eancia do quase. \u201c\u00e9 quase um manifesto \/ por um quase negro \/ que \u00e9 quase um homem \/ quase filho caboclo ek\u00e9 orix\u00e1 santo sem base\u201d. \u201cO mundo \u00e9 uma roda e n\u00f3s no meio\u201d e a \u201cminha vida \u00e9 um baile entre seus bra\u00e7os\u201d. Transmutei seus versos para senti-los, novamente, dentro de mim de outros modos, em outras velocidades. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei ao certo \u201cque porra \u00e9 mesmo o contempor\u00e2neo\u201d. Mas sei que a poesia underground n\u00e3o tem limites temporais, porque vive nos subterr\u00e2neos. Depois discutimos \u201cse houve mesmo uma autoria ou cria\u00e7\u00e3o coletiva\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Walter Benjamin, sabiamente, uma vez disse assim: \u201cNunca h\u00e1 um documento da cultura que n\u00e3o seja, ao mesmo tempo, um documento da barb\u00e1rie\u201d. Ainda bem que n\u00e3o estamos tratando de um documento, mas d\u00e1 sua pot\u00eancia significativa, da poesia em seu estado de resili\u00eancia. Em sua formula\u00e7\u00e3o viva e pulsante nos corpos. \u201cent\u00e3o pergunto: mem\u00f3ria e corpo \/ h\u00e1 distintos um do outro?\u201d. Recortes palavreiros de uma na\u00e7\u00e3o colonial em ru\u00ednas. Alex dispara um ciclo de not\u00edcias: das desalian\u00e7as internacionais \u00e0 barb\u00e1rie da civiliza\u00e7\u00e3o. Em terras brasilis, \u201cAqui tudo parece que era ainda constru\u00e7\u00e3o, e j\u00e1 \u00e9 ru\u00edna\u201d, como cantou Ca\u00ea. Alex nos joga na parede e nos constrange a pegar vis\u00e3o: \u201cem suspenso ningu\u00e9m vive nem se acerta sem medida\u201d. V\u00ea isso? \u00c9 o sangue das ossadas da barb\u00e1rie ainda fresco batendo nas paredes da mem\u00f3ria. Afrodiasporicidade. Ancestralidade. Abre o olho, \u00e9 preciso ver: \u201cescravizados desembarcaram de navios negreiros \/ morrendo por maus tratos e\/ou de orgulho, talvez numa recusa por servir, morrendo como parte de um processo hist\u00f3rico e de resist\u00eancia em luta\u201d. Marielle, quem matou? David? Luana? Dandara? \u201cescondemos de n\u00f3s mesmos trezentos anos de escravid\u00e3o\u201d. Mas de l\u00e1 dos escombros nos assombram com seu sangue, sua ossada e sua vingan\u00e7a, \u201cenquanto segue o porto maravilha \/ com o futuro museu do amanh\u00e3 \/ o que fazer dos crimes insepultos?\u201d \u00c9 verdade, \u201ca gente tem de dar uma de louco porque sen\u00e3o ningu\u00e9m presta a aten\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 Grada Kilomba que diz \u201ccorpos brancos s\u00e3o sempre corpos que pertencem a algum lugar\u201d, posto que nossos corpos negros foram desterrados e mal enterrados pela colonialidade. Acredito que <em>Trans Formas S\u00e3o<\/em> territorializa, em alguma medida, esse nosso cu\u00ederlombo, para usar uma express\u00e3o de Tatiana Nascimento, de gente preta, insubmissa, dissidente e selvagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Trans Formas S\u00e3o<\/em> tamb\u00e9m s\u00e3o formas trans, trocadilho barato, mas tem seu efeito. Entre cores e amores, essa poesia carrega uma inquieta\u00e7\u00e3o, um n\u00e3o sei bem o que de agonia. \u00c9 por isso que \u201cmeu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem mem\u00f3ria \/ nem sabe decorar \/ ent\u00e3o decola\u201d. Corpos trans que nos transmutam, pois se \u201ca moda agora \u00e9 ser s\u00f3bria, n\u00f3s n\u00e3o podemos ser\u201d. \u00c9 porque \u201c\u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica: o contraste \u00e9 estrat\u00e9gia de quem milita a alegria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Trans Formas S\u00e3o<\/em> \u00e9 tamb\u00e9m leveza e beleza, \u201ccom os dois pauzinhos, que \u00e0s vezes se esfregam aligeirados e outras que se atravessam como pontes\u201d, criando conex\u00f5es, rasuras e misturas no \u201cperder-se entre outros corpos\u201d. Sem esquecer de \u201crespeitar o tempo\u201d, lograr o tempo e aquela \u201cputa censurada suposta martelada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom, nem todos os poemas couberam nessa leitura, mas como abarcar toda essa imensid\u00e3o? &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201ce para amarrar essa corda \/ andorinhas passar\u00e3o\u201d \u2013 Mas #elen\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Mayana Rocha Soares<\/em><\/strong> <em>\u00e9 feminista interseccional, decolonial e sapat\u00e3o. Doutoranda no programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o Literatura e Cultura (PPGLITCULT\/UFBA). Mestra em Estudo de Linguagens. Graduada em Letras e Ci\u00eancias Sociais.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A leitura atenta de Mayana Rocha Soares para o novo livro do poeta Alex Sim\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15982,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"autor_texto":"","texto_outros_olhares":"","footnotes":""},"categories":[3582],"tags":[2860,11,3587,17,189,3588],"caderno":[4365],"class_list":["post-15981","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-128a-leva","tag-alex-simoes","tag-aperitivo-da-palavra","tag-mayana-rocha-soares","tag-poesia","tag-resenha","tag-trans-formas-sao","caderno-aperitivo-da-palavra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15981","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15981"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15981\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21720,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15981\/revisions\/21720"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15982"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15981"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15981"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15981"},{"taxonomy":"caderno","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/caderno?post=15981"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}