{"id":15327,"date":"2018-10-22T11:17:50","date_gmt":"2018-10-22T14:17:50","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15327"},"modified":"2025-11-11T17:57:15","modified_gmt":"2025-11-11T20:57:15","slug":"dedos-de-prosa-ii-56","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-56\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&nbsp;Silvana Guimar\u00e3es<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ANA-m-IN.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"450\" role=\"presentation\" aria-hidden=\"true\" src=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ANA-m-IN.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15329\" srcset=\"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ANA-m-IN.jpg 450w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ANA-m-IN-150x150.jpg 150w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ANA-m-IN-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Ana Matsusaki<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Carteira de Identidade N\u00ba 803.412<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algu\u00e9m est\u00e1 cantando perto daqui. Um cachorro late. O carro freia com estardalha\u00e7o e deixa um sil\u00eancio sem eco, depois. Um galo cocorica, em desprop\u00f3sito. Uma crian\u00e7a chora, um homem tosse. Eu come\u00e7o um trabalho de parto ao reverso: vou dar \u00e0 escurid\u00e3o um poeta. A escurid\u00e3o completa, definitiva, \u00fanica esp\u00e9cie de eternidade em que ele acredita. Nenhum anjo torto por perto. Apenas eu, a outra. E essa cole\u00e7\u00e3o de ru\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha m\u00e3o direita segura a sua m\u00e3o esquerda (t\u00e3o vazia t\u00e3o fria).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lio&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele n\u00e3o diz nada. Apenas me olha e t\u00e3o brevemente seu olhar confirma: cheguei a tempo: era s\u00f3 eu quem faltava para a sua partida. Entrega-me, ent\u00e3o, seu \u00faltimo f\u00f4lego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu nome de batismo e registro \u00e9 Lygia Fernandes, mas durante 36 anos, sempre \u00e0s tardes, sempre no meu apartamento, fui a sua Lio. E nos amamos, dan\u00e7amos, rimos juntos como todos os animais que se amam com fervor. Anos \u00e0 sua sombra: eu nasci para ser a sua sombra. Agora mesmo, que eu o tenho morto em minhas m\u00e3os, estou \u00e0 sombra de sua morte e nela permanecerei, como se morta tamb\u00e9m estivesse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os obitu\u00e1rios est\u00e3o prontos, amanh\u00e3 v\u00e3o noticiar. Em v\u00e3o, jornalistas do mundo todo vir\u00e3o me buscar para a triste inquisi\u00e7\u00e3o. Eu negarei tudo, nada direi a mais. N\u00e3o contarei que o bardo roncava e n\u00e3o tinha chul\u00e9. Nem as palavras obscenas de sua prefer\u00eancia, recitadas ao meu ouvido, quando eu lhe pedia decifra-me, e ele me devorava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Decifra-me.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O defunto amado apenas sorri:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quer se prevalecer do meu corpo inerte?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quero que desvende a minha poesia escassa. Quero que me responda o que eu nunca perguntei, o que nunca aprendi (agora \u00e9 tarde?).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sua poesia de banheiro, voc\u00ea cansou de dizer, ele sorri, de novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembra-se do poema de amor, abril de 1974? A dedicat\u00f3ria?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu nunca esque\u00e7o. Estava escrito: <em>Charlie, nu em pelo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto, nada mais a declarar. Tudo o que eu quis dizer, est\u00e1 escrito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas eu n\u00e3o estou falando de amor. J\u00e1 nos falamos tudo do amor. Quero saber da poesia, da inspira\u00e7\u00e3o: \u00e9 coisa do destino, \u00e9 arranjo da gen\u00e9tica? A gente j\u00e1 nasce com ela? Como se nasce de olhos azuis ou castanhos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ah, os olhos. \u00c9 preciso revir\u00e1-los, mant\u00ea-los atentos, h\u00e1 que haver inten\u00e7\u00e3o no olhar, olhos de observar, de ler, de ler at\u00e9 o sil\u00eancio das coisas inauditas. Os olhos t\u00eam de ser m\u00e1gicos, constantemente atados \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. Os olhos s\u00e3o importante instrumento de cria\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Borges era cego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falo de outros olhos, que t\u00eam tato, consegue perceber? Os olhos de dentro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, os olhos profundos, de mergulhador, eu percebo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o acabei: e os adjetivos tontos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre isso eu cansei de dizer: entre dois deles, escolha um substantivo. E n\u00e3o me leve ao p\u00e9 da letra, por favor. (Os seus s\u00e3o pequenos arremedos de met\u00e1foras abortadas, covardes).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E voc\u00ea me amou assim mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Superficial (eu nunca desmaiei).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com todos os meus temores e insignific\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim. Tire a roupa! Tire tudo. Fique pelada, entendeu? Mostre as estrias, a celulite, a flacidez. Mostre \u00e0 poesia o que cansou de mostrar a mim. N\u00e3o lhe negue nenhum peda\u00e7o de voc\u00ea. A musa \u00e9 uma puta a quem se deve esperar e se entregar completamente despojado, sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por favor, voc\u00ea pode.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o posso dizer o indiz\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas voc\u00ea exerceu o cargo de poeta como se fosse um servidor p\u00fablico, batendo ponto, a vida inteira, ano a ano, m\u00eas a m\u00eas, dia a dia, minuto a minuto. Explique-me: de que subst\u00e2ncia foi feita a sua imagina\u00e7\u00e3o? De onde arrancou esses olhos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que o amante manteve fechados. E calados. Repetindo em sil\u00eancio que n\u00e3o era um deus, que era \u00ednfimo (al\u00e9m de t\u00edmido, sem gra\u00e7a).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea dizia que a sua escrita era a sua terapia. Devo acreditar ent\u00e3o que todo poeta \u00e9 louco?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deve deixar-me em paz. A paz sonhada em verso, em prosa, a paz da paz da paz: aquela que me faltou enquanto eu vivia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o me dou conta de que ele n\u00e3o est\u00e1 mais ali, somente o peito mudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca mais, penso (aniquilada).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca mais, choro (discreta).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca mais, reajo (intr\u00e9pida).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes que me tomem seu corpo arredio \u2014 seu andar curvado, de cabe\u00e7a baixa, bra\u00e7os colados \u00e0s pernas, o ar antigo de seminarista \u2014 antes que me levem a sua alma, antes que me arranquem o seu cora\u00e7\u00e3o, insisto:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu quero a senha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O poeta abre os olhos e a boca, puxa a dentadura com a l\u00edngua, deixa-a pendurada nos l\u00e1bios, a careta desfazendo-se num sorriso descomunal, teimoso, de goiaba vermelha e madura. Com voz p\u00e1lida e murcha, anuncia \u2014 assim na morte, como na vida \u2014, irredut\u00edvel:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Chega mais perto e contempla as palavras.<\/em><br \/>\n<em>Cada uma<\/em><br \/>\n<em>tem mil faces secretas sob a face neutra<\/em><br \/>\n<em>e te pergunta, sem interesse pela resposta,<\/em><br \/>\n<em>pobre ou terr\u00edvel, que lhe deres:<\/em><br \/>\n<em>Trouxeste a chave?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Silvana Guimar\u00e3es<\/strong> (Belo Horizonte\/MG). Soci\u00f3loga e escritora. Organizou e participou de algumas colet\u00e2neas, entre elas, Hiperconex\u00f5es \u2014 Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patu\u00e1, 2014) e 1917-2017 \u2014 O S\u00e9culo sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patu\u00e1, 2017). Editora da Germina \u2014 Revista de Literatura &amp; Arte e do site Escritoras Suicidas. Lan\u00e7a seu primeiro livro, de poesia, em 2018.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O desconcerto da vida no conto de Silvana Guimar\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15328,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"autor_texto":"","texto_outros_olhares":"","footnotes":""},"categories":[3559],"tags":[3574,81,41,3573],"caderno":[4367],"class_list":["post-15327","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-127a-leva","tag-adelaide-do-julinho","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-silvana-guimaraes","caderno-dedos-de-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15327","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15327"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21737,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15327\/revisions\/21737"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15328"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15327"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15327"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15327"},{"taxonomy":"caderno","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/caderno?post=15327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}