{"id":12342,"date":"2016-08-23T09:26:35","date_gmt":"2016-08-23T12:26:35","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12342"},"modified":"2025-11-12T08:55:43","modified_gmt":"2025-11-12T11:55:43","slug":"aperitivo-da-palavra-i-17","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-17\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A loucura nossa de cada dia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Neuzamaria Kerner<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Capa-A-loucura-dos-outros.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"297\" height=\"450\" src=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Capa-A-loucura-dos-outros.jpg\" alt=\"Capa - A loucura dos outros\" class=\"wp-image-12344\" srcset=\"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Capa-A-loucura-dos-outros.jpg 297w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Capa-A-loucura-dos-outros-198x300.jpg 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de dizer&nbsp;qualquer&nbsp;coisa, o t\u00edtulo que uso nessa resenha de &#8220;A Loucura dos Outros&#8221;, estonteante livro de contos&nbsp;de Nara Vidal, \u00e9 importante porque, na pr\u00f3pria palavra que sugere insanidade, encontramos a &#8220;cura&#8221; das paix\u00f5es que desarranjam a alma. Mas como viver sem esse&nbsp;desarranjo, ser feliz no meio de um mundo t\u00e3o louco?&nbsp;&nbsp;Ser\u00e1 que a loucura existe somente nos outros ou \u00e9 vista apenas com nossos olhos cheios de raz\u00e3o sempre a nosso favor?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O drama feminino percorre todos os contos vividos por 21 personagens: Ifig\u00eania, Marta, Ana Rosa, Vanessa, Cec\u00edlia, Adriana, Maria Dulce, Selma, L\u00facia, Amanda, Ana,&nbsp;Marelena, Rita, Ol\u00edvia, S\u00edlvia, Fl\u00e1via, \u00c9rica, Regiane, D\u00e9bora, Miriam, \u00cdris. Todas elas envolvidas em dramas que lembram as trag\u00e9dias gregas, mas, ao mesmo tempo, sendo dif\u00edcil classificar cada conto dentro de correntes liter\u00e1rias&nbsp;estudadas nas escolas&nbsp;porque h\u00e1&nbsp;um pouco de tudo. O subjetivismo com sua falta de clareza do movimento&nbsp;simbolista; a prosa realista&nbsp;com seu car\u00e1ter ideol\u00f3gico onde s\u00e3o discutidos problemas sociais (especificamente&nbsp;num ambiente restrito&nbsp;do universo feminino), quando a autora explora, sem nenhuma hipocrisia, sem pudores&nbsp;e numa linguagem bem clara&nbsp;focando sexualidade, a explora\u00e7\u00e3o, a infelicidade,&nbsp;a prostitui\u00e7\u00e3o, o incesto,&nbsp;a insatisfa\u00e7\u00e3o da figura feminina atemporal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se poderia dizer que s\u00e3o contos de escola naturalista pela forma como a palavra \u00e9 usada e as a\u00e7\u00f5es das personagens com suas hist\u00f3rias t\u00e3o chocantes que deixam o leitor com os dentes travando e rangendo ao mesmo tempo. No entanto, se poderia dizer que \u00e9 uma prosa com caracter\u00edsticas existencialistas bem marcantes quando \u00e9 mostrado o ser humano com suas circunst\u00e2ncias subjetivas, com sua \u00e2nsia de liberdade, mas ao mesmo tempo aprisionado no meio em que vive.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito, por\u00e9m,&nbsp;que qualquer tentativa de classifica\u00e7\u00e3o seria desnecess\u00e1ria porque a autora certamente n\u00e3o esteve&nbsp;preocupada com isso enquanto escrevia&nbsp;sobre a alma nua e dolorida da mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o foi&nbsp;\u00e0&nbsp;toa que Nara Vidal abriu o livro, tendo como ep\u00edgrafe um poema de Silvia&nbsp;Plath&nbsp;\u2013&nbsp;<em>Can\u00e7\u00e3o de amor da jovem louca<\/em>&nbsp;\u2013 j\u00e1 que os contos tratam da loucura encoberta pelos c\u00edlios de suas personagens. Depressivas, algumas delas cometem suic\u00eddio por n\u00e3o suportarem o peso da vida, assim como a poetisa que termina seu texto&nbsp;com os versos abaixo que sinalizavam sua depress\u00e3o e suic\u00eddio:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(&#8230;)<br \/>\n<em>Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro. <\/em><br \/>\n<em>Imaginei que voltarias como prometeste <\/em><br \/>\n<em>Envelhe\u00e7o, por\u00e9m, e esque\u00e7o-me do teu nome. <\/em><br \/>\n<em>(Acho que te criei no interior de minha mente)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Interessante tamb\u00e9m observar que a contista dedica o livro&nbsp;a&nbsp;Ism\u00e1lia. Seria uma homenagem e refer\u00eancia ao poema de<strong>&nbsp;<\/strong>Alphonsus&nbsp;de Guimaraens? Certamente.&nbsp;A loucura, o miolo da loucura&nbsp;est\u00e1 bem presente.&nbsp;Vejam:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando Ism\u00e1lia enlouqueceu, <\/em><br \/>\n<em>P\u00f4s-se na torre a sonhar&#8230; <\/em><br \/>\n<em>Viu uma lua no c\u00e9u, <\/em><br \/>\n<em>Viu outra lua no mar. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>No sonho em que se perdeu, <\/em><br \/>\n<em>Banhou-se toda em luar&#8230; <\/em><br \/>\n<em>Queria subir ao c\u00e9u, <\/em><br \/>\n<em>Queria descer ao mar&#8230; <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E, no desvario seu, <\/em><br \/>\n<em>Na torre p\u00f4s-se a cantar&#8230; <\/em><br \/>\n<em>Estava perto do c\u00e9u, <\/em><br \/>\n<em>Estava longe do mar&#8230; <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E como um anjo pendeu <\/em><br \/>\n<em>As asas para voar&#8230; <\/em><br \/>\n<em>Queria a lua do c\u00e9u, <\/em><br \/>\n<em>Queria a lua do mar&#8230; <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>As asas que Deus lhe deu <\/em><br \/>\n<em>Ruflaram de par em par&#8230; <\/em><br \/>\n<em>Sua alma subiu ao c\u00e9u, <\/em><br \/>\n<em>Seu corpo desceu ao mar&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desfile das personagens&nbsp;se inicia com&nbsp;Ifig\u00eania, num conto dolorido e surreal, a mulher que perdeu a cabe\u00e7a (literalmente) por amor ao palha\u00e7o Vareta. Em seguida, vem&nbsp;Ana Rosa, conto com um depoimento estarrecedor de um traficante&nbsp;assassino, seu marido, que a amava loucamente. E&nbsp;Cec\u00edlia? N\u00e3o conseguia mais olhar para o marido. Ser\u00e1 que se suicidou no metr\u00f4? Nara Vidal brinca com a imagina\u00e7\u00e3o do leitor, deixando-o na incerteza.&nbsp;Maria Dulce, nome doce, coitada \u2013 a sem cora\u00e7\u00e3o \u2013 deixa cair o filhinho de dois meses, talvez por&nbsp;n\u00e3o&nbsp;suportar que ele viesse a passar pelas mazelas da vida com a coragem necess\u00e1ria.&nbsp;L\u00facia, a que fazia queijo de cabras, depois de a fabriqueta ser fechada o marido fica desempregado e n\u00e3o consegue mais ver as estrelas que tanto apreciava com a mulher.&nbsp;Amanda&nbsp;sofria de baixa&nbsp;autoestima&nbsp;e era espancada pelo marido e ainda achava que ele tinha raz\u00e3o. Medo? Vergonha de ter um casamento falido? O que leva uma mulher a sofrer esse tipo de maltrato e ainda ser grata pela comida que o marido bota na mesa? Entre outras comoventes personagens, trago aqui&nbsp;Marelena, a garotinha que limpava a bunda compulsivamente at\u00e9 se ferir.&nbsp;Transtorno obsessivo-compulsivo. O que teria levado a garotinha a adquirir essa doen\u00e7a? Meio em que vive? Abuso sexual? A autora&nbsp;sacrifica o leitor n\u00e3o deixando claro o porqu\u00ea&#8230; \u00e9 preciso uma gin\u00e1stica mental para descobrir. Neglig\u00eancia dos pais? O que houve ali?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 interessante conferir a vida das outras personagens para tentar entender suas loucuras.&nbsp;N\u00e3o se fala aqui da loucura sobre a qual Arist\u00f3fanes designava na Idade M\u00e9dia. Algo at\u00e9 como divino.&nbsp;&#8220;Enlouquecer \u00e9 ser submetido \u00e0 ang\u00fastia e ficar prisioneiro do universo do n\u00e3o sentido, em que nossa linguagem fica aqu\u00e9m da possibilidade de interpretar o que experimentamos\u201d (Birman, 1983).&nbsp;Em todos os contos a vida dessas mulheres anda de m\u00e3os dadas com a&nbsp;\u201cloucura\u201d, a ang\u00fastia,&nbsp;a&nbsp;morte, mesmo que ela n\u00e3o mate a personagem de morte matada ou morte morrida ou, quem sabe, a morte de quem continua vivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Creio que a loucura tratada neste denso livro de contos&nbsp;\u00e9 a insensatez, o desencontro da coer\u00eancia com a incoer\u00eancia de pessoas que correm sem saber por que, para onde a fim de encontrar n\u00e3o sei o qu\u00ea. Talvez essa loucura de que fala a autora seja a do miolo mole mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em verdade \u00e9 a loucura que nos faz viver felizes, lembrando Erasmo de&nbsp;Rotterdam&nbsp;em seu livro&nbsp;Elogio da&nbsp;Loucura, escrito em 1508. Assim como a loucura \u00e9 a personagem de&nbsp;Erasmo, ela tamb\u00e9m se reinventa nos contos de Nara&nbsp;Vidal,&nbsp;mostrando&nbsp;qu\u00e3o hip\u00f3critas&nbsp;somos de n\u00e3o termos coragem de aceitar que os loucos existem para chamar os s\u00e3os \u00e0&nbsp;raz\u00e3o;&nbsp;mostrando que o&nbsp;desmiolamento&nbsp;alheio,&nbsp;em seus contos do livro &#8220;A Loucura dos Outros&#8221;, pode ser aceito&nbsp;e criticado,&nbsp;mas n\u00e3o as&nbsp;nossas&nbsp;&nbsp;loucuras nossas de cada dia, principalmente no universo feminino. Nesse universo, h\u00e1 que se ser louco para suportar o peso da raz\u00e3o e encontrar um pouco de felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De repente, encontramos uma cura na Loucura das personagens da autora. Vejamos!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Neuzamaria Kerner<\/em><\/strong><em>, baiana de Salvador, \u00e9 professora e escritora. Tem publicados os livros: \u201cFragmentos de Cristal\u201d, \u201cEu Bebi a Lua\u201d, \u201cA Presen\u00e7a do Mar na Prosa Grapi\u00fana\u201d, entre outras publica\u00e7\u00f5es em revistas liter\u00e1rias. Seu mais recente rebento po\u00e9tico \u00e9 \u201cO Livro-Arb\u00edtrio das Evas \u2013 Dentro e Fora do Jardim\u201d (Ed. Editus \u2013 2014).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neuzamaria Kerner discorre sobre \u201cA Loucura dos Outros\u201d, novo livro da escritora Nara Vidal<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12343,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"autor_texto":"","texto_outros_olhares":"","footnotes":""},"categories":[3099,16],"tags":[3110,11,2595,471,189],"caderno":[4365],"class_list":["post-12342","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-112a-leva","category-destaques","tag-a-loucura-nossa-de-cada-dia","tag-aperitivo-da-palavra","tag-nara-vidal","tag-neuzamaria-kerner","tag-resenha","caderno-aperitivo-da-palavra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12342"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12342\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21997,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12342\/revisions\/21997"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12343"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12342"},{"taxonomy":"caderno","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/caderno?post=12342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}