{"id":12160,"date":"2016-07-06T17:07:28","date_gmt":"2016-07-06T20:07:28","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12160"},"modified":"2025-11-12T08:56:43","modified_gmt":"2025-11-12T11:56:43","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-45","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-45\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 duas maneiras de um escritor revisitar o passado: por meio da autobiografia ou atrav\u00e9s da fic\u00e7\u00e3o. Em seu livro mais recente, o volume de contos \u201cEles n\u00e3o moram mais aqui\u201d, o mineiro <strong>Ronaldo Cagiano<\/strong> se posiciona diante do cruzamento entre essas duas vias, acessando os fatos que constituem sua obra ao converter mat\u00e9ria autobiogr\u00e1fica em mat\u00e9ria liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado \u00e9 um di\u00e1logo permanente entre inven\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria, no qual os personagens s\u00e3o agentes de suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia latente do autor observando a pr\u00f3pria vida a uma devida dist\u00e2ncia. A inf\u00e2ncia na pequena cidade de Cataguases, a descoberta da leitura, a poesia como fa\u00edsca elementar para a escrita, as mudan\u00e7as para Bras\u00edlia e, anos depois, para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma forma\u00e7\u00e3o humana permeada pela literatura e por uma galeria de autores cujas influ\u00eancias apontam um norte e explicam a pr\u00f3pria carreira. \u201cCreio que a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 caudat\u00e1ria de nosso hist\u00f3rico de leituras e n\u00e3o h\u00e1 como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem d\u00favida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso n\u00e3o apenas na literatura\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em entrevista exclusiva, Cagiano esclarece as circunst\u00e2ncias por tr\u00e1s de alguns dos contos, partindo de assuntos espec\u00edficos para fazer uma ampla reflex\u00e3o sobre o of\u00edcio da escrita. Com mais de uma dezena de livros publicados, entre novelas, antologias po\u00e9ticas e infantojuvenis, o autor ainda debate os (des)caminhos do mercado liter\u00e1rio, o surgimento de novos autores e editoras, a parceria com a escritora Elt\u00e2nia Andr\u00e9, cujo primeiro romance j\u00e1 est\u00e1 no prelo, e sua atua\u00e7\u00e3o como cr\u00edtico de livros, pelo qual \u00e9 um dos mais respeitados do pa\u00eds. &#8220;A literatura continua sendo o \u00fanico lugar onde se pode ser livre&#8221;, justifica o empenho em prol de um fazer liter\u00e1rio que vai al\u00e9m do seu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-RC-int-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"338\" src=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-RC-int-01.jpg\" alt=\"Ronaldo Cagiano\" class=\"wp-image-12163\" srcset=\"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-RC-int-01.jpg 500w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-RC-int-01-300x203.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ronaldo Cagiano \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Em seu livro mais recente, o volume de contos &#8220;Eles n\u00e3o moram mais aqui&#8221;, voc\u00ea utiliza como mat\u00e9ria ficcional a mem\u00f3ria, as lembran\u00e7as de lugares e de pessoas da cidade mineira de Cataguases, onde nasceu. Acredita que todo escritor, em algum momento, invariavelmente volta para casa? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Creio que a literatura \u00e9 uma ponte entre o passado (com sua carga de mem\u00f3ria ancestral: afetiva, geogr\u00e1fica, familiar, psicol\u00f3gica, hist\u00f3rica) e o presente. Estamos sempre dialogando com nossas ra\u00edzes e experi\u00eancias remotas. Penso que tanto na prosa quanto na poesia n\u00e3o h\u00e1 escrita puro-sangue, ou seja, tudo que escrevemos \u00e9 um di\u00e1logo entre a inven\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria, pois, como dizia Cyro dos Anjos, &#8220;a literatura se nutre do real&#8221;. Assim, vejo Cataguases como o Capiberibe de &#8220;C\u00e3o sem plumas&#8221;, de Jo\u00e3o Cabral, pois minha cidade \u00e9 como aquele rio: &#8220;Est\u00e1 na mem\u00f3ria; como um c\u00e3o vivo\/ dentro de uma sala&#8221;. Vivi at\u00e9 os 18 anos em Cataguases, passei 28 anos em Bras\u00edlia. Se esta me deu r\u00e9gua e compasso, como na m\u00fasica de Gil, foi Cataguases quem me (in)formou como ser, como leitor e como escritor. A mitologia da cidade \u00e9 (o) que me alimenta ficcional e poeticamente, pois quando volto os olhos para o vazio ou do escuro do passado, \u00e9 de l\u00e1 que retiro mat\u00e9ria e circunst\u00e2ncias para minha prosa e minha poesia. E a barbearia do meu pai foi a grande escola desse aprendizado de ver e ler o mundo, em seu sal\u00e3o, onde fui engraxate dos 8 aos 14 anos, (re)colhi as hist\u00f3rias da cidade, capt(ur)ei o seu imagin\u00e1rio e chafurdei no seu inconsciente,&nbsp; uma esp\u00e9cie de vitrine cr\u00edtica da vida individual, coletiva, social e pol\u00edtica. A cidade povoa minha experi\u00eancia criativa a partir dali, onde circulavam multif\u00e1rios seres, de onde eu mirava, como um promont\u00f3rio, os acontecimentos do dia a dia, as figuras folcl\u00f3ricas e pitorescas, a gente mi\u00fada em sua coreografia di\u00e1ria pelas ruas, esses tecel\u00f5es de mist\u00e9rios que tanto invocaram nossa imagina\u00e7\u00e3o. &#8220;Nenhum rosto \u00e9 t\u00e3o surrealista quanto o verdadeiro rosto de uma cidade&#8221;, disse Walter Benjamin, assim a cada conto, a cada hist\u00f3ria, a cada poema, tendo desvelar a face de uma cidade que a cada dia, apesar da dist\u00e2ncia dos anos e do meu asilo em outras plagas, \u00e9 a mesma e \u00e9 outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; O poema de Jo\u00e3o Cabral, a que se refere, est\u00e1 no conto &#8220;Sombras&#8221;, possivelmente o mais emotivo da colet\u00e2nea, um tipo de relato inflexivo no qual voc\u00ea transporta, para o contexto imagin\u00e1rio, o luto que, mesmo com o escorrer dos anos, n\u00e3o se dissolve por completo. Livros, como &#8220;Carta a D.&#8221;, de Andr\u00e9 Gorz, e &#8220;Altos voos e quedas livres&#8221;, de Julian Barnes, tratam igualmente desse sentimento de tristeza profunda pela morte de algu\u00e9m muito querido. Voc\u00ea acredita que a literatura, de alguma forma, \u00e9 um canal pelo que esse vazio possa ser confrontado ou, ao menos, compreendido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Nesse conto, particularmente, (es)corre uma esp\u00e9cie de hidrografia sentimental: no fluxo das lembran\u00e7as de um acontecimento real, migrei para a fic\u00e7\u00e3o a experi\u00eancia de um luto sofrido por uma fam\u00edlia, que teve de purgar a dor de uma perda t\u00e3o precoce. Creio tamb\u00e9m na literatura como inst\u00e2ncia para certas catarses, em que a viv\u00eancia pessoal (ou a alheia que, muitas vezes tamb\u00e9m nos servem como fonte liter\u00e1ria) nos possibilita um mergulho e uma reflex\u00e3o sobre as imponder\u00e1veis conting\u00eancias de nosso percurso ou de nosso tempo. Estamos sempre fazendo literatura al\u00e9m das expans\u00f5es on\u00edricas, transcendendo a realidade por meio de uma (in)tensa tentativa de compreender (ou superar) os vazios, sil\u00eancios, perdas e outras dores que vivemos ao longo de nossa fugaz e prec\u00e1ria exist\u00eancia. Dessa forma, escrever como exerc\u00edcio permanente de confronto com realidades distintas, \u00e9 a maneira que encontramos de dialogar com aquilo que nos perturba, desconforta e de, certa forma, nos desestabiliza e nos modifica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Outro aspecto que salta aos olhos, na colet\u00e2nea, \u00e9 um di\u00e1logo constante com in\u00fameros escritores, que se cristaliza no conto \u201cEsbo\u00e7os para a (de)composi\u00e7\u00e3o do naufr\u00e1gio\u201d, em que o narrador se lan\u00e7a numa incurs\u00e3o pelo territ\u00f3rio liter\u00e1rio, encontrando-se com nomes como Machado de Assis, Cervantes, Kafka e Pl\u00ednio Marcos. O quanto desse espelhamento h\u00e1 na sua forma\u00e7\u00e3o e, por consequ\u00eancia, em seu processo liter\u00e1rio? De uma maneira representativa, acredita que o autor, por mais completo que seja, nunca escreve sozinho, que todos os textos decorrem de um impulso de influ\u00eancias e recortes acumulados durante a leitura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Entendo a escritura como sendo uma experi\u00eancia-rio: ela carrega (ou transporta) as recolhas de nossa caminhada, seja como ser, leitor ou escritor. Dessa forma, no que escrevo, tudo flui impregnado de outras refer\u00eancias. Aquilo que li, o que vi, ou o que viv\u00eancias alheias me serviram como exemplo, farol ou li\u00e7\u00e3o. Sempre incorporo algo da garimpagem que realizo ao mergulhar no aluvi\u00e3o est\u00e9tico de outros autores. Certa vez, um amigo escritor dizia que, embora gostasse muito de ler meus contos (e at\u00e9 poemas), sentia-se incomodado na maioria das vezes, por ter que pagar ped\u00e1gio \u00e0s ep\u00edgrafes. Argumentei que o uso desse recurso (Murilo Rubi\u00e3o foi um dos que mais o utilizaram em seus contos; da mesma forma o mineiro Jo\u00e3o Batista Melo), mais que intertextualidade, ou al\u00e9m da homenagem a autores e livros que me marcaram, vejo tamb\u00e9m como um di\u00e1logo tem\u00e1tico e afetivo, uma ponte dial\u00e9tica entre o que escrevi e o que li, no sentido n\u00e3o de pl\u00e1gio ou carona, mas com a fun\u00e7\u00e3o an\u00e1loga e simbi\u00f3tica de espelhar sentimentos e express\u00f5es que, de outra forma, e melhor, disseram a respeito do mesmo tema. No fundo, creio que a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 caudat\u00e1ria de nosso hist\u00f3rico de leituras e n\u00e3o h\u00e1 como afastar-se dessa sintonia, desse beber em outras fontes para enriquecer a nossa, pois somos influenciados, sem d\u00favida, pelo que acumulamos, e essas pistas nos formam e isso n\u00e3o apenas na literatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; A poesia, que se faz subst\u00e2ncia de alguns contos do seu livro mais recente, foi tamb\u00e9m seu ponto de partida na carreira liter\u00e1ria, com o lan\u00e7amento de &#8220;Palavra engajada&#8221;, de 1989. Essa predile\u00e7\u00e3o de g\u00eanero seguiu por alguns anos, at\u00e9 finalmente voc\u00ea se encontrar com a prosa. A que atribui esse movimento? Sua primeira experi\u00eancia com a leitura parte da poesia? H\u00e1 com ela uma liga\u00e7\u00e3o de cumplicidade afetiva ou foram os versos a maneira pela qual primeiramente compreendeu seu impulso art\u00edstico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Considero-me essencialmente poeta, embora tenha me incursionado pela fic\u00e7\u00e3o com mais vigor nos \u00faltimos anos. Mas, desde os primeiros livros, leitores e amigos identificaram uma certa predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 prosa, por perceberem um f\u00f4lego discursivo em meus poemas. Embora, paralelamente, \u00e0 escrita e publica\u00e7\u00e3o de livros de poesia tenha sempre produzido prosa, seja em jornais (desde a adolesc\u00eancia colaborava para um hebdomad\u00e1rio tradicional de minha cidade, com cr\u00f4nicas, pequenos contos e artigos de opini\u00e3o), seja por meio de hist\u00f3rias que deixava na gaveta, foi somente depois de alguns t\u00edtulos de poesia que optei por dar \u00e0 luz meus primeiros textos ficcionais, na esteira da sugest\u00e3o desses amigos, que insistiam para que eu investisse no g\u00eanero. Assim surgiu &#8220;Dezembro indigesto&#8221;, volume em que reuni alguns contos in\u00e9ditos, tendo com ele vencido o Concurso Bolsa Bras\u00edlia de Produ\u00e7\u00e3o Liter\u00e1ria de 2001, com a publica\u00e7\u00e3o pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal. A partir dessa feliz estreia, dediquei-me mais \u00e0 confec\u00e7\u00e3o ficcional, sem abandonar a paix\u00e3o pela poesia, para a qual fui despertado aos 11 anos, quando li os versos candentes de &#8220;Eu&#8221;, de Augusto dos Anjos, livro que representou um divisor de \u00e1guas na minha vida de leitor, instigando-me a escrever os primeiros poemas. Creio que essa liga\u00e7\u00e3o visceral e umbilical com a poesia delineia minha prosa, porque essa liga\u00e7\u00e3o afetiva e sensorial com ela pode ser sentida no que escrevo, porque sempre persigo a prosa po\u00e9tica como \u00eamulo a meus projetos ficcionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-1-int-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-1-int-02.jpg\" alt=\"Ronaldo Cagiano\" class=\"wp-image-12165\" srcset=\"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-1-int-02.jpg 500w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-1-int-02-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ronaldo Cagiano \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 dois pontos, em sua resposta, que eu gostaria de me aprofundar. O primeiro \u00e9 o que chamou de persegui\u00e7\u00e3o da prosa po\u00e9tica, cujo \u00e1pice, no meu entendimento, est\u00e1 no conto &#8220;Mar de dentro&#8221;, que se passa em Teer\u00e3. \u00c9 not\u00e1vel, na sua escrita, essa rela\u00e7\u00e3o com a cidade, o espa\u00e7o geogr\u00e1fico, muitas vezes em tom de di\u00e1logo, como se este servisse de cen\u00e1rio e, ao mesmo tempo, de interlocutor. Voc\u00ea nasceu em Minas, mas viveu em Bras\u00edlia por muito tempo e, agora, em S\u00e3o Paulo. Consegue notar uma influ\u00eancia latente de cada um desses lugares em sua literatura, ou acredita que o escritor ocupa um territ\u00f3rio expatriado, t\u00e3o vasto dentro de si?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Compartilho uma express\u00e3o de Baudelaire para reafirmar isso: &#8220;Seja poeta, mesmo em prosa&#8221;. Quando li isso, certa vez, percebi que pertencia \u00e0 fam\u00edlia dos que, ao fazerem fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se preocupam apenas &#8211; e de forma descarnada &#8211; em contar uma hist\u00f3ria. Penso que o am\u00e1lgama para uma hist\u00f3ria, no conto ou romance, \u00e9 a pr\u00f3pria linguagem e ela, muitas vezes, \u00e9 t\u00e3o forte e determinante quanto a trama ou a psicologia dos personagens. Essa talvez seja uma peculiaridade no que escrevo, uma esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com minha g\u00eanese liter\u00e1ria, a origem primordial do que crio est\u00e1 na poesia que procuro retirar dos pequenos dramas e trag\u00e9dias, dos conflitos e dilemas individuais ou coletivos, da banalidade ou transitoriedade das coisas. Por outro lado ressalto, ainda, o fato de trabalhar na minha literatura os espa\u00e7os em que vivi e que me influenciaram, como forja do homem e do escritor: o geogr\u00e1fico, o psicol\u00f3gico, o afetivo, que delineiam meu arcabou\u00e7o existencial. S\u00e3o pilares que sustentam o meu processo criativo, mergulho no territ\u00f3rio da inf\u00e2ncia, nas experi\u00eancias afetivas, nos apelos hist\u00f3ricos, nas invoca\u00e7\u00f5es sensoriais para compor o painel de minha leitura pessoal e cr\u00edtica desses universos e atmosferas que me forjaram e me inspiram tantas revisitas. Essa ancestralidade t\u00e3o referencial nos habita e nos chacoalha, nela est\u00e3o as fontes de nossa rela\u00e7\u00e3o com o agora, nas quais a literatura \u00e9 inst\u00e2ncia de expans\u00e3o, catapulta. Certa vez li no livro &#8220;Manual Pr\u00e1tico de Levita\u00e7\u00e3o&#8221;, de Agualusa, a fala de um personagem que me parece espelho do que ocorre quando revolvo essas reminisc\u00eancias: &#8220;O passado \u00e9 como o mar: nunca sossega&#8221;. Ent\u00e3o, essas \u00e1guas vivem redemoinhando dentro de mim, as \u00e1guas do rio Pomba, t\u00e3o m\u00ed(s)tico em minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, com suas cheias alarmantes nos expulsando de casa; as \u00e1guas do Lago Parano\u00e1, em Bras\u00edlia, cidade onde vivi 28 anos e que me deu &#8220;r\u00e9gua e compasso&#8221;, como diz a m\u00fasica de Gil; e agora nessas novas (c)(t)orrentes, em S\u00e3o Paulo, onde estou h\u00e1 nove anos, levando-me a outros fluxos nesse eterno e imponder\u00e1vel mist\u00e9rio que \u00e9 o destino. Essa interlocu\u00e7\u00e3o com o passado remoto ou recente (Cataguases, Bras\u00edlia), esse di\u00e1logo com o presente (S\u00e3o Paulo) \u00e9 uma maneira de me situar em meio ao cipoal caleidosc\u00f3pico de realidades distintas (e suas contradi\u00e7\u00f5es), que vivi e vou experienciando. E a literatura abriga cada um desses peda\u00e7os (sentimentais e f\u00edsicos). Em &#8220;Interpreta\u00e7\u00e3o de dezembro&#8221;, Drummond me ajuda reconhecer que \u201c\u00c9 o menino em n\u00f3s\/ ou fora de n\u00f3s\/recolhendo o mito\u201d.&nbsp; Esse menino que f(l)ui, pega na minha m\u00e3o e escreve sobre o que hoje em mim \u00e9 flu\u00eancia e desatino. Portanto, n\u00e3o consigo separar o que escrevo do que vivi, tudo se manifesta como uma sinergia de sensa\u00e7\u00f5es acumuladas, que se atualizam cada vez que a fic\u00e7\u00e3o se embebeda do real.&nbsp; Cada viagem a Minas \u00e9 um manancial de recorr\u00eancias afetivas t\u00e3o fortes e esse caudal sentimental se transformar\u00e1 em mat\u00e9ria liter\u00e1ria ou apreens\u00e3o po\u00e9tica nalguma oportunidade. A cidade que (re)vejo (ou visito) hoje n\u00e3o \u00e9 aquela cidade que me transformou ou transtornou, a que est\u00e1 intacta na minha percep\u00e7\u00e3o, pois hoje sou estrangeiro nesse mundo que l\u00e1 est\u00e1 transplantado e, para fugir desse ex\u00edlio compuls\u00f3rio, me asilo no \u201cinex\u00edlio\u201d da mem\u00f3ria e nela afugento os fantasmas do presente. Como no conto \u201cDa pr\u00f3xima vez\u201d, de Carrascoza, &#8220;A cidade da inf\u00e2ncia, t\u00e3o outra nos meus olhos se comparada \u00e0 mem\u00f3ria.&#8221; Ou algo similar num poema de Asc\u00e2nio Lopes, poeta modernista da minha cidade, morto precocemente na d\u00e9cada de 20, que fala: &#8220;Cataguases! Cataguases!\/ Vale a pena viver em ti.\/ Nem inquietude.\/ Nem peso in\u00fatil\/ de recorda\u00e7\u00f5es.\/ Mas a certeza que nasce\/ das coisas\/ que n\u00e3o mudam bruscas.\/ Nem ficam eternas.&#8221; No mais, tomando emprestado de Ortega y Gasset a ideia da influ\u00eancia, para o qual &#8220;eu sou eu e minhas circunst\u00e2ncias&#8221;, eu diria que eu sou eu e minhas leituras, eu e minhas viagens e rela\u00e7\u00f5es com o que me cerca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Bela resposta. Passou-me a frase de Borges que diz que todo autor sempre escreve o mesmo livro. H\u00e1 uma mem\u00f3ria basilar para todos os enredos, e isso que se configura a literatura. Agora voltando ao segundo ponto, voc\u00ea menciona a bolsa de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e, complementando a ideia, alguns dos contos de &#8220;Eles n\u00e3o moram mais aqui&#8221; foram previamente premiados. Com a extensa carreira que tem, o quanto considera importante para um autor esses dois recursos? Como um financiamento ou uma premia\u00e7\u00e3o pode ser producente ou prejudicial?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Sem d\u00favida, acredito que essas alternativas s\u00e3o a sa\u00edda, sobretudo num pa\u00eds como o Brasil, em que o sistema editorial \u00e9 extremamente hegem\u00f4nico e monopolizado, sem crit\u00e9rios definidos para a recep\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de autores, prevalecendo, na maioria das vezes, as rela\u00e7\u00f5es, as panelinhas, os guetos, as igrejinhas, as amizades e outros sistemas perversos de vasos comunicantes, em detrimento da qualidade da obra, perpetrando-se hist\u00f3ricas e abomin\u00e1veis injusti\u00e7as (autores de qualidade negligenciados sem pudor, enquanto mediocridades s\u00e3o incensadas sem nenhum constrangimento). Nesse ambiente liter\u00e1rio dominado por interesses, percebo tamb\u00e9m o total descaso de grande parte da cr\u00edtica que milita na grande m\u00eddia impressa e seus cadernos de cultura, salvo rar\u00edssimas e honrosas exce\u00e7\u00f5es, pois s\u00f3 reconhecem vida inteligente na literatura publicada por grandes editoras. S\u00e3o pernosticamente indiferentes a um bom autor que tenha sido editado por um selo desconhecido, principalmente se fora do eixo Rio-S\u00e3o Paulo.&nbsp; Ent\u00e3o, o que resta aos autores sem &#8220;pedigree&#8221; s\u00e3o os concursos liter\u00e1rios, as bolsas de publica\u00e7\u00f5es e outros programas de incentivo e apoio municipais e estaduais, que funcionam como estimulantes para os novos e at\u00e9 mesmo para veteranos sem oportunidades nas grandes casas editoriais. S\u00e3o alternativas concretas para tornar menos injusta a partilha de espa\u00e7o nesse cen\u00e1rio t\u00e3o dominado pelos ditames do deus mercado, e na maioria das vezes, esses certames sinalizam uma maior visibilidade, chamando aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica e proporcionando acesso a edi\u00e7\u00f5es e distribui\u00e7\u00e3o mais amplas. Ressalto que, em meio a esse deserto de possibilidades, um o\u00e1sis se mostra como interdi\u00e7\u00e3o desse processo: \u00e9 o papel das pequenas editoras que, a meu ver, de forma herc\u00falea e quixotesca, com seus editores matando um le\u00e3o por dia e nadando contra a mar\u00e9 do mercado editorial, v\u00eam publicando autores e obras de ineg\u00e1vel qualidade, inclusive nada devendo \u00e0s grandes editoras quanto ao esmero gr\u00e1fico, sendo que muitas delas v\u00eam conquistando pr\u00eamios em importantes concursos de n\u00edvel nacional, entre as quais destaco Patu\u00e1, Dobra, Confraria do Vento, LetraSelvagem, Penalux, Oito e Meio, Reformat\u00f3rio, Kazu\u00e1, Casar\u00e3o do Verbo etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complicada e, em muitos casos, desleal. H\u00e1 algum tempo, conversava com um escritor superpremiado, com livros traduzidos fora do pa\u00eds, que se encontra sem editora, desmotivado. Um vexame, uma vergonha para o meio liter\u00e1rio. Mas gostaria tamb\u00e9m que enxergasse esse contexto por um outro \u00e2ngulo. Voc\u00ea n\u00e3o percebe que, com o surgimento de muitas editoras e a escancarada democratiza\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o, temos tamb\u00e9m autores estreando sem a devida bagagem, com livros que, amadurecidos mais um pouco, teriam muito mais a oferecer em termos de qualidade liter\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Concordo plenamente quanto ao fato de que essa facilidade de acesso aos meios editoriais mais dispon\u00edveis (pequenas editoras, plataformas e suportes na internet, como blogs e revistas eletr\u00f4nicas etc), ainda que possibilite a livre publica\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m imp\u00f5e o risco do nivelamento por baixo, ao despejarem muitos t\u00edtulos sofr\u00edveis, autores de duvidosa qualidade e obras sem a devida maturidade. Acabam por entupir o mercado, empurrados pelas \u00e1guas da avidez, a\u00e7odamento e desespero de escritores que pretendem publicar a qualquer custo e s\u00e3o seduzidos ou cooptados por algumas editores sem escr\u00fapulos, empresas ca\u00e7a-n\u00edqueis que se aproveitam da g(r)ana dos incautos. Vale para isso um antigo aforismo popular: &#8220;Nem tudo que cai na rede \u00e9 peixe&#8221;. Assim, entendo, ser preci(o)so tamb\u00e9m ter o discernimento necess\u00e1rio, tanto de editores quanto de leitores, para se separar o joio do trigo, pois as pequenas editoras s\u00e9rias acabam sofrendo o estigma pela falta de crit\u00e9rios de outras tantas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Por outro lado, temos os escritores que se colocam num patamar superior, que s\u00f3 participam de colet\u00e2neas, eventos e demais express\u00f5es art\u00edsticas mediante pagamento. Embora renomado, com pr\u00eamios e publica\u00e7\u00f5es fora do pa\u00eds, voc\u00ea \u00e9 muito ativo em colabora\u00e7\u00f5es em jornais, revistas, sites, al\u00e9m de participar e organizar antologias. O quanto considera essencial, para sua carreira, continuar desbravando novos territ\u00f3rios para sua literatura? E, desdobrando a pergunta, n\u00e3o acredita que, para um jovem autor, o melhor caminho n\u00e3o seria iniciar com colabora\u00e7\u00f5es para adquirir um pouco de &#8220;casca&#8221; e, enfim, publicar o primeiro livro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Evidentemente, h\u00e1 certos escritores convertidos em sumidades, cuja literatura e nome al\u00e7am o patamar de uma grife, que imp\u00f5em certas condi\u00e7\u00f5es financeiras para suas participa\u00e7\u00f5es (entrevistas, colabora\u00e7\u00f5es em jornais, semin\u00e1rios, palestras, feiras liter\u00e1rias, resenhas, orelhas, pref\u00e1cios), gente que n\u00e3o sai de casa sem pagamento, sob o p\u00e1lio da profissionaliza\u00e7\u00e3o de suas carreiras. Creio que o escritor exerce uma atividade que em nada difere de qualquer outra, portanto deve ser remunerado pelo que produz. No entanto, vivemos num pa\u00eds que, hist\u00f3rica e culturalmente, s\u00f3 acredita naquilo que culmina em produtividade material, afer\u00edvel sob o ponto de vista da produtividade. Portanto, atividade intelectual e art\u00edstica, sobretudo a liter\u00e1ria, sempre foi vista com menoscabo e indigna de pagamento, porque alcan\u00e7a uma minoria, ainda mais que somos uma na\u00e7\u00e3o sem leitores e livro n\u00e3o faz parte da cesta b\u00e1sica. Muitas vezes somos for\u00e7ados a nos prostituir para ter o m\u00ednimo de espa\u00e7o, ao emprestar o talento e a for\u00e7a de trabalho mental e intelectual sem a devida contrapresta\u00e7\u00e3o, pois, na maioria dos casos, jornais e revistas j\u00e1 n\u00e3o pagam mais pelas colabora\u00e7\u00f5es, assim tamb\u00e9m alguns convites para palestras em escolas e eventos menos suntuosos ou concorridos em que o autor n\u00e3o pode deixar de comparecer, sob pena de receber a pecha de esnobismo. Lembro-me de que, quando organizei tr\u00eas antologias (&#8220;Poetas Mineiros em Bras\u00edlia&#8221;, &#8220;Antologia do conto brasiliense&#8221; e &#8220;Todas as gera\u00e7\u00f5es &#8211; conto brasiliense contempor\u00e2neo&#8221;) tive dificuldades em convencer dois ou tr\u00eas escritores para o projeto, porque exigiram remunera\u00e7\u00e3o e direitos autorais, o que n\u00e3o acho de todo ileg\u00edtimo, n\u00e3o obstante a realidade em que vivemos. Ainda que eu ponderasse que as edi\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham cunho comercial, mas funcionariam como registro da produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e ficcional brasiliense, e o organizador n\u00e3o receberia nada por isso, tendo cada autor, na edi\u00e7\u00e3o de 1.000 exemplares de cada, a uma quota de 10 livros, mesmo assim esses n\u00e3o aceitaram participar. Entendo que nem sempre devemos atuar de gra\u00e7a, porque em muitos casos h\u00e1 inst\u00e2ncias e organiza\u00e7\u00f5es que podem e devem remunerar pelo trabalho produzido. Nos pa\u00edses desenvolvidos, a atividade de escritor \u00e9 devidamente valorizada e qualquer atividade n\u00e3o prescinde do devido pagamento, at\u00e9 mesmo uma modesta apari\u00e7\u00e3o com foto numa mat\u00e9ria de jornal \u00e9 motivo suficiente para pagamento. Enquanto n\u00e3o atingirmos esse est\u00e1gio ou consci\u00eancia do valor e a necessidade de se dar a justa contrapresta\u00e7\u00e3o financeira ao trabalhador liter\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1rio tentar harmonizar os interesses, n\u00e3o fugindo \u00e0 raia quando determinados espa\u00e7os nos solicitam ou convocam, justificada a impossibilidade, pela pr\u00f3pria precariedade desses meios, de pagamento ao autor, at\u00e9 porque j\u00e1 s\u00e3o t\u00e3o ex\u00edguos os espa\u00e7os e muitas vezes s\u00e3o estes que nos oferecem alguma janela ou visibilidade, abrindo possibilidades para circula\u00e7\u00e3o de textos, poemas, artigos, resenhas, cr\u00edtica etc, o que, de certa forma, credencia o autor, sobretudo em in\u00edcio de carreira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Por falar em resenha, um outro of\u00edcio que voc\u00ea se firmou como um dos mais respeitados do pa\u00eds \u00e9 o de cr\u00edtico liter\u00e1rio. Eu, inclusive, j\u00e1 tive a alegria de ter a sua precisa an\u00e1lise de um dos meus livros. Hoje temos centenas de blogs, sites e os chamados booktubers que, de maneira geral, enquadram suas impress\u00f5es liter\u00e1rias entre o gosto pessoal e a superf\u00edcie anal\u00edtica. Como \u00e9, para voc\u00ea, atuar como leitor cr\u00edtico? Como come\u00e7ou esse trabalho? Recorda-se da primeira resenha? Algum cr\u00edtico o inspirou? Quais as ferramentas fundamentais para se escrever um boa resenha?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Primeiramente, n\u00e3o me considero cr\u00edtico nem ensa\u00edsta, porque minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 em Direito (advoguei durante muitos anos, at\u00e9 2002, paralelamente \u00e0 minha vida de banc\u00e1rio) e n\u00e3o tenho forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em Letras, muito menos, p\u00f3s ou doutorado, portanto, care\u00e7o do embasamento te\u00f3rico-cient\u00edfico, n\u00e3o sou versado em lingu\u00edstica nem em teoria liter\u00e1ria, como soi acontecer com os especialistas. Dessa forma, vejo-me exercendo essa atividade apenas de modo intuitivo, emulando minhas impress\u00f5es mais como um colega de of\u00edcio e leitor apaixonado, que s\u00f3 escreve sobre os livros de que gosta, pois n\u00e3o tenho predisposi\u00e7\u00e3o para a cr\u00edtica iconoclasta, hep\u00e1tica e demolidora, porque entendo que um livro ruim n\u00e3o merece aten\u00e7\u00e3o e ele sucumbir\u00e1 pelo pr\u00f3prio dem\u00e9rito no desgosto dos leitores ou mesmo da cr\u00edtica. No m\u00e1ximo, quando percebo que a obra mere\u00e7a qualquer amparo ou reparo cr\u00edtico, se tenho alguma intimidade com o escritor, procuro abord\u00e1-lo e comentar pontos que parecem relevantes no sentido de dar toques, pistas ou oferecer sugest\u00f5es ou indicar par\u00e2metros (principalmente leituras) para qualificar melhor seu trabalho. Seria uma cr\u00edtica pessoal e sincera, sem o esp\u00edrito desmantelador que uma cr\u00edtica p\u00fablica desencadearia, pois entendo que ela poderia abortar uma carreira ou desestimular um escritor ainda em gesta\u00e7\u00e3o.&nbsp; Essa necessidade de expressar-me \u00e0 margem das leituras ao longo da vida surgiu ainda na adolesc\u00eancia, quando comecei a escrever os primeiros textos para um jornal dominical de Cataguases, atividade que foi crescendo ao mudar-me para Bras\u00edlia, quando tomei contato com a obra de cr\u00edticos antigos e contempor\u00e2neos, cujo mergulho est\u00e9tico, filos\u00f3fico, exeg\u00e9tico, hermen\u00eautico e ensa\u00edstico me despertou interesse, principalmente pela forma como incursionavam seus olhares nos diversos meandros de uma constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Entre essas prim\u00edcias, cito Jos\u00e9 Guilherme Merquior, \u00c1lvaro Lins, Antonio Olinto, Otto Maria Carpeaux, Alceu Amoroso Lima, Antonio Houaiss, Afr\u00e2nio Coutinho, Antonio Candido, Wilson Martins, Aur\u00e9lio Buarque de Holanda, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima, Antonio Carlos Secchin, exemplos marcantes de cr\u00edticos liter\u00e1rios, independente de suas vincula\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, mas pela lucidez e coer\u00eancia de suas postula\u00e7\u00f5es. Minhas primeiras opini\u00f5es sobre livros reca\u00edram sobre autores do c\u00edrculo liter\u00e1rio de Bras\u00edlia, quando comecei a publicar no Correio Braziliense, Jornal de Bras\u00edlia, Revista Literatura, Jornal da ANE e DF Letras, depois ampliando minha participa\u00e7\u00e3o em outros ve\u00edculos regionais e nacionais, como o Op\u00e7\u00e3o e o Di\u00e1rio da Manh\u00e3 (Goi\u00e2nia), O Dia (Teresina), O Estado (Florian\u00f3polis), Correio das Artes (PB), Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo (BH), Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo (SP), Jornal do Brasil e O Globo (RJ), Guia de Livros da Folha, Rascunho, dentre outros, al\u00e9m de incursionar por alguns blogs com frequ\u00eancia, atividade que se viu reduzida h\u00e1 alguns meses, por absoluta falta de tempo. Para mim \u00e9 uma atividade esteticamente prazerosa, porque al\u00e9m de me proporcionar o contato com novos autores de diversas regi\u00f5es do pa\u00eds, com ineg\u00e1veis surpresas, ajuda-me a penetrar no insond\u00e1vel do processo criativo individual e na g\u00eanese de cada obra. Para mim, o resenhista tem o dever de ir fundo, ser sincero, fazer cr\u00edtica n\u00e3o como caridade, n\u00e3o apenas homologat\u00f3ria, para agradar a quem quer que seja, mas com o dever de apontar no trabalho sua qualidade, sem ceder \u00e0s paix\u00f5es pessoais ou amizades, mas sempre com uma inflex\u00e3o dial\u00e9tica, de modo que tenha uma ampla vis\u00e3o da obra e n\u00e3o da vida do autor, permitindo-lhe um percurso capaz de penetrar as filigranas e retirar os palimpsestos de uma arte que est\u00e1 sob seu olhar e bisturi, como se fosse um cirurgi\u00e3o a penetrar as v\u00edsceras de um corpo com suas engrenagens e fluxos, como considero ser um texto de fic\u00e7\u00e3o ou de poesia. Sempre tive em conta uma li\u00e7\u00e3o de Graciliano (que recolhi de uma entrevista sua de 1948) quando vou analisar um livro e tentar perceber se o autor andou nessas \u00e1guas ou bebeu nessas fontes: \u201cDeve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras l\u00e1 de Alagoas fazem seu of\u00edcio. Elas come\u00e7am com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enx\u00e1guam, d\u00e3o mais uma molhada, agora jogando a \u00e1gua com a m\u00e3o. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e d\u00e3o mais uma torcida e mais outra, torcem at\u00e9 n\u00e3o pingar do pano uma s\u00f3 gota. Somente depois de feito tudo isso \u00e9 que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra n\u00e3o foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-Ronaldo-int-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-Ronaldo-int-3.jpg\" alt=\"Ronaldo Cagiano\" class=\"wp-image-12166\" srcset=\"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-Ronaldo-int-3.jpg 500w, https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Foto-Ronaldo-int-3-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ronaldo Cagiano \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Seguindo, ent\u00e3o, com as palavras do Graciliano, como analisa o que \u00e9 &#8220;dito&#8221; pelos novos autores? Escapando do saudosismo, percebe uma gera\u00e7\u00e3o detentora de uma literatura inferior a de outros tempos, ou uma apenas distinta, que se comunica com outros meios e, por conseguinte, constitui uma tend\u00eancia em evolu\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211; <\/strong>Em termos comparativos, \u00e9 ineg\u00e1vel a profus\u00e3o de autores e obras atualmente em rela\u00e7\u00e3o ao que se produzia antigamente, raz\u00e3o pela qual em meio a uma variedade de t\u00edtulos, a preval\u00eancia de literatura ruim \u00e9 tamb\u00e9m bem maior, na mesma propor\u00e7\u00e3o em que h\u00e1 bons autores em todos os g\u00eaneros. Esse fen\u00f4meno vem a reboque das facilidades para veicula\u00e7\u00e3o de material liter\u00e1rio n\u00e3o apenas nos meios tradicionais (livros, revistas, jornais, suplementos), mas tamb\u00e9m nas plataformas e suportes eletr\u00f4nicos. Estes, particularmente, exercem um papel preponderante na dissemina\u00e7\u00e3o desse acervo de cria\u00e7\u00e3o ficcional e po\u00e9tica que a cada minuto a internet disponibiliza, democratizando o acesso tanto de quem escreve quanto a quem l\u00ea.&nbsp; Acredito que a literatura, como qualquer arte ou of\u00edcio, sofre suas metamorfoses, seguindo a ordem natural do pr\u00f3prio processo evolutivo, humano e social, como dos meios que os legitimam. Assim como o mundo mudou, a tecnologia e as facilidades da comunica\u00e7\u00e3o trouxeram inexoravelmente suas vantagens em todos os campos, assim tamb\u00e9m a escritura deu seus saltos (\u00e9ticos, est\u00e9ticos, dial\u00e9ticos) e essa transforma\u00e7\u00e3o se d\u00e1 primordialmente pela linguagem, que considero a inst\u00e2ncia em que essas mudan\u00e7as se operam e s\u00e3o assimiladas com mais vigor. O leitor e o escritor de hoje n\u00e3o s\u00e3o os mesmos dos tempos de Bilac, Alencar, Machado, Graciliano ou Rosa, nem por isso uma e outra gera\u00e7\u00e3o se anulam. Antes, se comunicam de forma sinerg\u00e9tica.&nbsp; Hoje, outros s\u00e3o os influxos, referenciais est\u00e9ticos e culturais. Outras tamb\u00e9m s\u00e3o as influ\u00eancias do meio, da cultura de massas, da dita civiliza\u00e7\u00e3o movida pela informatiza\u00e7\u00e3o, uma realidade permeabilizada por trocas intensas e profundas, n\u00e3o s\u00f3 internamente como com outras culturas e realidades, e tudo sob o imp\u00e9rio da velocidade e do r\u00e1pido escalonamento de valores. A l\u00edngua e a literatura caminharam nas \u00e1guas dessa corrente, impregnando a dic\u00e7\u00e3o dos novos autores, os quais foram apreendendo novos cen\u00e1rios, realidades, emula\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias n\u00e3o apenas f\u00edsicas e geogr\u00e1ficas, mas tamb\u00e9m psicol\u00f3gicas e hist\u00f3ricas. Isso \u00e9 tang\u00edvel e aferido nos aspectos formais e tem\u00e1ticos de cada autor contempor\u00e2neo, cuja literatura \u00e9 irrigada por novos sentimentos e sentidos, sem, contudo, perder o liame com o passado remoto ou mais recente da nossa hist\u00f3ria bibliogr\u00e1fica. O mundo e as pessoas que escreviam, liam e se comunicavam na era do tel\u00e9grafo n\u00e3o s\u00e3o os mesmos que escrevem, leem e se comunicam on time e online, com outros recursos e possibilidades de express\u00e3o. E literatura \u00e9 fruto desses novos tempos, autores e obras antenados com essa emerg\u00eancia inexor\u00e1vel.&nbsp; Ent\u00e3o, n\u00e3o se trata de mensurar ou menoscabar o que se produz hoje em rela\u00e7\u00e3o aos c\u00e2nones ou mestres do passado. O mundo que a obra de um autor moldura e modula hoje n\u00e3o \u00e9 diferente daquele, por\u00e9m as sensa\u00e7\u00f5es e olhares diferem no modo de perceber e deslindar quest\u00f5es, conflitos, dramas e situa\u00e7\u00f5es, sob a perspectiva de uma linguagem que \u00e9 especular dessa contemporaneidade exigente e avassaladora, atualizando a dic\u00e7\u00e3o com que aquela gera\u00e7\u00e3o distante &#8211; com os recursos e limita\u00e7\u00f5es da \u00e9poca &#8211; dispunha para falar e incursionar pelos universos e atmosferas distintos, o que torna defeso impor a pecha de anacronismo ou supremacia de uma \u00e9poca sobre a outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Outro aspecto marcante de sua carreira s\u00e3o as parcerias. Em 2012, por exemplo, voc\u00ea lan\u00e7ou a novela &#8220;Moenda de sil\u00eancios&#8221;, em parceria com Whisner Fraga. Uma outra parceria de longa data \u00e9 com a escritora Elt\u00e2nia Andr\u00e9, com quem \u00e9 casado. Como funciona esse relacionamento, que \u00e9 margeado pela literatura? Voc\u00eas compartilham ideias, sugest\u00f5es e leituras? H\u00e1 a influ\u00eancia de um no processo criativo do outro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Foram experi\u00eancias partilhadas com outros escritores numa interessante simbiose, um exerc\u00edcio de escrita colaborativa, de coautoria ou de obra a quatro m\u00e3os. E o primeiro convite surgiu no final dos anos 1990, quando o amigo e escritor alagoano (radicado em Bras\u00edlia) Joilson Portocalvo, que na \u00e9poca realizava oficinas liter\u00e1rias no Pres\u00eddio da Papuda, prop\u00f4s o desafio para que escrev\u00eassemos um livro juntos. Ent\u00e3o, nasceu a novela juvenil &#8220;Espelho, espelho meu&#8221;, projeto encampado e publicado pela Editora Thesaurus, em que tratamos de temas ligados aos conflitos da adolesc\u00eancia, mapeando as tens\u00f5es dentro de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia com a abordagem de situa\u00e7\u00f5es relacionadas ao relacionamento pais-filhos, ao sexo, \u00e0 gravidez precoce, drogas etc, numa linguagem que postulasse uma discuss\u00e3o, sem caricaturas ou dissimula\u00e7\u00f5es, desses conflitos t\u00e3o comuns na realidade familiar. Depois, outro convite do escritor Whisner Fraga, que culminou na novela juvenil &#8220;Moenda de sil\u00eancios&#8221; (contemplada com o pr\u00eamio de publica\u00e7\u00e3o do ProAC\/Secretaria de Cultura do Estado de SP), que faz um percurso em outra vertente,&nbsp; tratando dos encontros e desencantos, dos sonhos e frustra\u00e7\u00f5es de dois jovens do interior mineiro perdidos no cipoal de suas expectativas e nas engrenagens da cidade grande, para onde foram em busca de um futuro ou de um sentido para suas vidas, obra que recolheu um pouco dos vest\u00edgios de nossas experi\u00eancias em Cataguases e Ituiutaba. E a mais recente incurs\u00e3o pela escrita conjunta \u00e9 o romance &#8220;Diolindas&#8221;, escrito com Elt\u00e2nia Andr\u00e9, minha esposa, obra que estava hibernada h\u00e1 uns seis anos, por\u00e9m sair\u00e1 do anonimato em breve, quando ser\u00e1 publicada pela Editora Penalux, hist\u00f3ria que mergulha na vida e revezes e lit\u00edgios de uma fam\u00edlia. Nesse particular, tem sido proveitosa, instigante e complementar \u00e0 vida afetiva a rela\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do casal, n\u00e3o apenas gerando o fruto de um livro, mas em raz\u00e3o da peculiar e m\u00fatua cumplicidade, sintonia e empatia no campo da cria\u00e7\u00e3o, pois dividimos e comunicamos nossos espa\u00e7os, nosso modus operandi, idiossincrasias, inquieta\u00e7\u00f5es e outros aspectos ligados ao ato de \u201cescreviver\u201d. E, n\u00e3o obstante as diferen\u00e7as de estilo e linguagem, as motiva\u00e7\u00f5es e interesses distintos, h\u00e1 um canal permanente, um fluxo intenso entre nossos processos e experi\u00eancias passadas e recentes, tanto da pr\u00f3pria escritura individual quanto relativamente ao hist\u00f3rico de leituras, de modo que um torna-se, naturalmente, leitor cr\u00edtico do outro (e de si) e esse tr\u00e2nsito tem sido extremamente prof\u00edcuo ao nosso amadurecimento como seres e como autores. De certa forma, a intensidade dessa participa\u00e7\u00e3o ativa de um na vida do outro, nos afetos e na cria\u00e7\u00e3o, tem contribu\u00eddo para uma influ\u00eancia que valoriza e estimula o que vimos construindo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Uma not\u00edcia fant\u00e1stica essa do novo livro! Contudo, essa n\u00e3o \u00e9 a primeira parceria de voc\u00eas. Em seu recente romance, o formid\u00e1vel &#8216;Para fugir dos vivos&#8217;, Elt\u00e2nia se apropria de experi\u00eancias vividas para criar uma fic\u00e7\u00e3o particular, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Trata-se de um livro de fic\u00e7\u00e3o em que Elt\u00e2nia&nbsp; recolheu apenas alguns detalhes de nossas experi\u00eancias pessoais, para esbo\u00e7ar o perfil dos personagens, no entanto a hist\u00f3ria \u00e9 outra, n\u00e3o a que vivemos. Fomos criados na mesma rua e durante nossa inf\u00e2ncia compartilhamos amizade, hist\u00f3rias comuns e rela\u00e7\u00f5es familiares. Nesse sentido a sua fic\u00e7\u00e3o se apropriou de caracter\u00edsticas f\u00edsicas, de pessoas e ambientes comuns \u00e0 nossa conviv\u00eancia, para a constru\u00e7\u00e3o de personagens h\u00edbridos, por\u00e9m, nem a trama nem os protagonistas s\u00e3o recria\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios vividos ou acontecimentos presenciados, mas uma realidade inventada a partir de flashes ou flagrantes de realidades distintas, enfim, a autora, na minha \u00f3tica de primeiro leitor de seus textos, teve autonomia para juntar os cacos de experi\u00eancias de terceiros e esbo\u00e7ar um outro painel puramente ficcional. Portanto, n\u00e3o houve, de minha parte, qualquer participa\u00e7\u00e3o ou intromiss\u00e3o nesse processo criativo, apenas um ou outro detalhe sobre alguma circunst\u00e2ncia hist\u00f3rica ou social que nos eram comuns e que pude aclarar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DA &#8211; Agora o personagem real, o menino que se descobriu poeta em Cataguases e atuou, com afinco, em prol da literatura e da pr\u00f3pria literatura, qual o saldo que faz da carreira? A literatura lhe proporcionou mais alegrias ou decep\u00e7\u00f5es? Atribuindo a voc\u00ea uma das frases mais emblem\u00e1ticas do novo livro, conseguiu sair de Cataguases para n\u00e3o ficar menor que ela?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RONALDO CAGIANO &#8211;<\/strong> Num r\u00e1pido encontro de contas, o saldo \u00e9 positivo, no que eu considero literatura para mim n\u00e3o como profiss\u00e3o, mas empenho que se recicla a cada dia, como tentativa de me comunicar, expressar-me diante dos dilemas e inquieta\u00e7\u00f5es pessoais e coletivos, de vencer o tempo para exorcizar fantasmas ou enganar a morte. E tentar compreender o nosso (des)lugar nesse mundo. Vivo para a literatura &#8211; para um ler e \u201cescreviver\u201d em constante renova\u00e7\u00e3o &#8211; e n\u00e3o da literatura, porque \u00e9 imposs\u00edvel sobreviver material ou financeiramente tendo-a como atividade principal, sobretudo num pa\u00eds sem leitores, em que o escritor precisa da seguran\u00e7a, da estabilidade e do conforto de uma profiss\u00e3o para ordenar a vida pr\u00e1tica, em que essa atividade t\u00e3o estigmatizada sofre menoscabo e nos faz sentir que o escritor parece mover-se num grande camel\u00f3dromo, tendo que ser mascate da pr\u00f3pria obra. Ent\u00e3o, nesse balan\u00e7o, posso dizer que a literatura deu-me alegrias e encontros. A vida, o sistema e o conv\u00edvio liter\u00e1rios, incont\u00e1veis decep\u00e7\u00f5es e frustra\u00e7\u00f5es. Mas, como literatura n\u00e3o \u00e9 agita\u00e7\u00e3o nem o falso verniz das flips e quejandos, dos holofotes e das re(l)a\u00e7\u00f5es oportunistas t\u00e3o comuns a esse&nbsp; meio viciado e viciante; nem a busca obsessiva e arrivista das vitrines e da figura\u00e7\u00e3o, o que me interessa \u00e9 o texto e n\u00e3o o contexto, por isso n\u00e3o crio expectativas nem sofro. O que tiver de ser ser\u00e1, fruto da pr\u00f3pria peneira do tempo, dos leitores e da cr\u00edtica honesta. Tomo emprestado de Northrop Frye para amalgamar o que penso sobre o papel da escritura em minha vida: &#8220;A literatura continua sendo o \u00fanico lugar onde se pode ser livre&#8221;, reconhecendo, ainda, outro papel fundamental, pois, segundo Borges, &#8220;A literatura \u00e9 revanche de ordem mental contra o caos do mundo&#8221;.&nbsp; E foi ela que me antecipou que existir era bem maior e sempre um movimento cont\u00ednuo de transforma\u00e7\u00f5es, permitindo-me sair do isolamento, do provincianismo, da mediocridade e da aliena\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria que nos afetam na vida interiorana, para que n\u00e3o fiquemos menores que ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa reflex\u00e3o sobre as perspectivas que norteiam seu trabalho, o escritor Ronaldo Cagiano dialoga com S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12161,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"autor_texto":"","texto_outros_olhares":"","footnotes":""},"categories":[3067,16],"tags":[63,8,241,1023],"caderno":[4373],"class_list":["post-12160","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-111a-leva","category-destaques","tag-entrevista","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-ronaldo-cagiano","tag-sergio-tavares","caderno-pequena-sabatina-ao-artista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12160"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12160\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22010,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12160\/revisions\/22010"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12160"},{"taxonomy":"caderno","embeddable":true,"href":"https:\/\/dev.antoniopaim.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/caderno?post=12160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}