Paulo Sérgio Lima
O costureiro e a toalha de retalhos
São profundos
os cortes nas noites,
e não se diferem
dos cortes nas tardes
nem cortes nas longas
madrugadas.
Volta e meia
surgem novos cortes
mínimos; disfarces
envolvidos, sedas,
afins. Pormenores,
mas profundos.
***
Mapa em alto-relevo
Eu não sei, das mãos,
qual leva, enraizada,
pena ou espada.
Soubesse: tatuaria o então.
***
De cifras e ações
A José Inácio Vieira de Melo
Guardas nos instantes
de harpa e dicionário,
castelos e pedras,
cactos e cavalos.
Escombros de árvores
revelam as mãos
que bate e que escreve
cinzas do ser tão.
Pássaros da mente,
pardo missionário,
são as soluções
do teu boticário.
Pianos e aboios
ao verso, sons dão,
e inscrevem no vento
a continuação.
Duradouro arder
de ausente ocaso,
são tuas solidões
as que, em mim, disfarço?
***
Para depois de dezembro
Um bilhete pontiagudo –
agulha no corte da carne,
explodira o desejo proibido
de pérola do seio da primavera.
Amor – olho que tudo desenxerga,
reivindicara, à lucidez do papel,
uma fresta, uma linha, mais nada.
As palavras atravessadas
calaram-se atravessadas.
Um caminho de boninas,
canas, rosas – deusas raras;
as duas cabeças de girassóis
encantando a praça;
os peixes cantando borbulhas,
mesmo na fumaça do balé;
ou, então, o aconchego
das folhas verdes sobre a terra úmida:
o verde que tingira de um belo
o cinza,
como papagaios e periquitos
em dias de criança.
O bilhete – porta para o que há de ser,
em sua frase única, fora claro:
pela palavra,
tudo há de nascer.
***
Pontas
E fez-se um labirinto
cheio de assombro e luz.
Do nada, nada pôde ser gerado:
até a sombra nascia de um estalo.
Em busca da ponta da ponta,
empenharam caminhadas,
declamaram evangelhos
que, no fim, inventavam caminhadas.
Do outro lado do labirinto,
alimentados de milho e feijão
– alunos do colégio solar –
dedilhavam no instrumento do chão
as escrituras mais que encantadas.
De cá ou de lá,
ninguém notara um certo velho.
Não… Ninguém notara…
Porque se entendessem o rubi
sem fim ou começo que era o amor
nos olhos daquele cego,
abririam pico no mundo;
acertariam os provérbios.
Finda caminhada.
Paulo Sérgio Lima, antes de ser baiano, é jequieense e brasileiro – a Bahia está no meio. Nasceu em 1989. Só em 1998 conheceu uma sala de aula e seu universo de letras. A universidade chegou em 2010 – Licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB/JQ. Acredita que a paixão pela leitura, pela poesia, tenha surgido do ato de folhear livros didáticos de Língua Portuguesa na adolescência. Tem poemas publicados na revista virtual Verbo21 e no blog Clandestinos.
