As humanas idades de Pedro Alles

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Pedro Alles

 

São os tais percursos deixados pelo homem. As frontes expostas diante da sinceridade dos dias. As marcas do tempo, os semblantes abrigados num recanto qualquer. Travestidas de rotina, as figuras humanas trapaceiam os efeitos do óbvio, negando-lhe a condição de seres aborrecidos por uma suposta falta de novidade ou pelas marcas da repetição. Mas eis que há, sim, a descoberta do novo ante os fragmentos da realidade. Sentir-se vivo é, antes de mais nada, constatar que a poesia dos instantes não é sufocada por uma espécie de ceticismo universal.

Assim o faz Pedro Alles, quando deixa brotar de suas imagens elementos exaltadores da condição humana. Uma pluralidade de rostos, corpos e lugares encontra abrigo no atento registro do artista. Miramos os caminhos propostos e, na maior brevidade possível, sentimo-nos testemunhas dos cenários.  Ao passo que cada captar da luz instaura em nós alguma identificação, percebemos que somos cúmplices ativos de uma realidade abrangente.

As fotografias de Pedro não esperam pela hora mágica. Chamam atenção pelo vigor da simplicidade que permeia nossa trajetória de mortais. As coisas acontecem diante dos nossos olhos sem que para tanto sejam profetizadas de modo apoteótico ou apocalíptico. Não há início, meio e fim. Apenas o puro transcurso do olhar que deseja apresentar epifanias da existência.

 

Foto: Pedro Alles

 

Seja uma ponta de mar, uma expressão facial ou o gestual encerrado na rotina dos nossos iguais, tudo carrega em si o emblema dos difusos percursos de vida. Diferentes mundos se intercruzam, compondo histórias de um complexo tecido social. Aí reside a riqueza dos flagrantes do fotógrafo, seu trunfo por trazer à tona o coletivo enquanto agregado de células subjetivas. Nesse fluido de individualidades, estão misturados sonhos, gozos, gestos e algumas poucas certezas.

Pedro Alles fala de suas origens como alguém que sempre buscou aventurar-se pelos caminhos sem pretender verdades universais. Nasceu em Salvador e morou no Rio Grande do Sul, Maranhão e Rio de Janeiro. Fez de tudo um pouco. Foi restaurador de museu, roteirista de quadrinhos, trabalhou com fotografia de moda, publicidade, além de também ter sido editor jornalístico. Escreveu dois livros: um de poemas (Micrices Adestradas, 1993); outro de aforismos (As Mínimas do Marquês do Herval, 1997). Depois de muitas andanças, deixou para trás um mestrado em filosofia para se dedicar a sua pousada no litoral de João Pessoa, na Paraíba.

Por visar a conjunção entre contemplação e reflexão, a arte de Pedro não ignora os desvãos do mundo. Do mesmo modo como sua estética propõe uma abordagem sutilmente crítica das coisas, uma menção à beleza faz alusão a uma tão necessária manutenção da esperança. Mesmo que sejamos reconhecidamente imperfeitos e repetitivos.

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

* As fotografias de Pedro Alles são parte integrante da galeria e dos textos da 98ª Leva